O escritor moçambicano, Mia Couto, defendeu, durante a aula Magna de Abertura do Ano Académico, na Universidade de São Tomás de Moçambique (USTM), que a pesquisa científica “não vai bem em Moçambique, não vai bem em toda a África”, justificando-se que o nosso continente tem 14 por cento da população mundial, mas que se produz menos de um por cento da investigação científica feita em todo o mundo. Segundo ele, os pesquisadores africanos produzem, num ano, o mesmo número de artigos científicos que os que são publicados apenas, por exemplo, na Holanda. “Esse é o retrato da situação”, rematou. Sobre o investimento na pesquisa, defendeu que “só temos, à nossa disposição, menos de um por cento dos gastos mundiais em pesquisa. Isto é os governos africanos continuam a não investir na pesquisa científica.” Na sua óptica, isso deve-se ao facto de a pesquisa em África ser rudimentar e grandemente dependente da ajuda externa e de fundos internacionais. Ilustrou que, em 2012, a nossa região da África Austral foi um bom exemplo dessa dependência, visto que oitenta por cento de toda a nossa pesquisa veio de financiamentos externos, colocando-nos nos ainda fortemente dependentes na produção de novos conhecimentos, com menos autonomia nas escolhas e com mais dificuldade em impor as nossas agendas. Destacou haver uma faceta que deve ser pesada quando se fala das universidades moçambicanas, que é da invisibilidade da pesquisa. “Não sabemos o que está a ser pesquisado (as Universidades continuam a viver fechadas sobre si mesmas). A sociedade não conhece o que elas fazem e por isso não se valoriza a instituição universitária como produtora de ciência e conhecimento. Muitas das instituições de ensino superior falam de si mesmas num plano exclusivamente comercial: sabemos delas pelos anúncios publicitários dos jornais, da Rádio e da Televisão. O risco desta prática é que as universidades sejam vistas apenas como fábricas de graduados. Fabricam diplomas, não fabricam sabedoria”, rematou. Para ele, a enfâse deve ser dada ao questionamento, tendo salientado que o patrono desta casa, (USTM) São Tomás de Aquino, buscou a verdade nos livros, mas foi dentro de si que ele mais procurou. “Pesquisou dentro da sua alma, dentro da alma do seu tempo. Não foi alguém que se acomodou, alguém que buscou a recompensa dos poderosos. É importante que o exemplo desse sábio não figure apenas no nome da instituição. Comecem por pesquisar quem foi este grande homem e como o seu percurso foi feito de batalhas contra os poderes estabelecidos.”, frisou. Aconselhou aos estudantes da USTM a interrogar o que já é sabido, aprendendo a duvidar do que parece ser evidente, já que, na sua óptica, todos os dias se fabricam monstruosas mentiras que são apresentadas como factos que beneficiam de um aparelho de amplificação que vive nas pessoas como se fosse a sua terceira mão. “ São os telemóveis. Estes maravilhosos produtos da técnica têm um defeito: são cegos. Servem de igual modo a verdade e a mentira. Demos-lhe o nome pomposo de smart phones, telefones inteligentes. Mas por muito inteligentes que sejam falta-lhes uma coisa. Eles não sabem fazer perguntas. Foram feitos para dar respostas. Essa é uma das grandes diferenças entre a nossa inteligência que é orgânica e viva dessa outra que é mecânica e artificial”, disse Mia Couto. Deixou uma mensagem a direcção da instituição para que não fique limitada a publicações académicas, mas que se deva manter uma intervenção pública e aberta na sociedade. “Não se limitem a fornecer quadros para o mercado. Ajudem a criar um mercado mais justo e mais adequado aos interesses de Moçambique.” Aos estudantes, por outro lado, disse para não pensarem que são pequenos. “Não pensem que para se ser alguém é preciso ser filho de alguém poderoso. Não pensem que serão apenas quadros técnicos, que vão ser formados para obedecer a ordens. Não pensem que o melhor é agradar aos chefes e fazer de conta que está tudo bem. Se ficarem calados talvez vos calhe uma promoção, uma viagem, uma bolsa. Mas o que perderem é muito mais
